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50 anos do martírio de 23 crúzios no Congo PDF Imprimir E-mail

Celebramos neste ano de 2015 a memória dos 50 anos de martírio de 23 padres e irmãos crúzios em terras africanas. Lembramos com gratidão a coragem desses homens que não se recusaram a amar, mas sim a pegar em armas para desfazer o amor. Eles foram massacrados e degolados em Buta e Dakwa por tropas da guerrilha rebelde Simba, juntamente com outras pessoas. martirio 1

Esta história de entrega de vidas pela vida de um povo teve início em 1920, quando os primeiros crúzios chegaram no então chamado Congo Belga. Eles foram para a região norte do Rio Uele, onde trabalharam na evangelização e na promoção da vida. A independência colonial da Bélgica ocorreu em 1960 por fortes pressões internacionais. Entre 1964 e 1965 ocorreu uma rebelião apoiada na parte norte do país contra o governo, o grupo rebelde se denominava “Simba”. Quando a rebelião teve início os crúzios que trabalhavam na região decidiram não fugir, mas permanecer em solidariedade ao povo congolês. Durante a guerra entre rebeldes do M.N.C (comunistas) contra as tropas do governo  do partido chamado Radeco, vários missionários foram capturados e mantidos reféns por meses, entre eles 23 crúzios que trabalhavam na região.

 

O padre crúzio Jan Verhoeven escreveu um diário intitulado "Reféns de Makondo”, contando os detalhes dos nove meses de cativeiro. Os relatos remontam meados de 1964 com a chegada dos rebeldes Simba em Bondo, quando os missionários foram forçados a assistir a execução de alguns de seus paroquianos e amigos. O diário de Padre Jan termina poucas semanas antes do massacre.

Na véspera de 30 de maio de 1965, todos os missionários foram trancados em um cômodo à margem do rio, naquela noite chegou por rádio a ordem para que todos os missionários brancos  fossem executados. Os reféns se confessaram e fizeram suas orações com hinos entregando suas vidas nas mãos de Deus. Duas irmãs nativas e o bispo de Buta, mesmo decididos a permanecer com o grupo, foram libertados. Naquela madrugada cinquenta rebeldes Simba, forçaram os missionários a se despirem e amarrarem suas mãos para trás obrigando-os a caminharem até os bancos de areia à margem do rio. Neste ambiente hostil foram espancados e tiveram partes de seus corpos amputadas e alguns foram decapitados, quase nenhuma arma de fogo foi usada.  As partes dos corpos foram jogadas no rio e devoradas por crocodilos.

Com a chegada de tropas da capital apoiadas pela Bélgica e EUA, a rebelião foi suprimida e meses depois alguns crúzios voltaram ao local do massacre e se depararam com uma calamitosa situação de muitas famílias dizimadas, edificações como escolas, igrejas, casas, hospitais totalmente destruídos. Para uma região carente em serviços essenciais, a guerra devastou as poucas estruturas de serviço à população. Atualmente a presença dos Cruzios no Congo é vibrante e cheia de esperança, ainda que muitos desafios sociais persistam.  A Ordem hoje conta com 92 membros, que generosamente dedicam suas vidas à formação educativa das crianças e jovens, além de um intenso serviço à reconciliação e superação dos traumas da guerra.

Ainda nos dias atuais, Crúzios e tantos milhões de Africanos vivem em um ambiente instável  e ameaçador, no limite do genocídio maciço entre as tribos hutus e tutsis.  O leste do Congo continua a ser inseguro, abandonado pelos líderes políticos, jogado nas mãos de comerciantes de diamantes, onde  mulheres são  violentadas, e a infância roubada de meninos que se tornam soldados prematuramente.  O mundo fecha seus olhos e se silencia em uma “globalização da indiferença”, como bradou profeticamente Papa Francisco.

Ao fazer memória do martírio dos Crúzios na África, nós lamentamos suas mortes ao  mesmo tempo em que louvamos a Deus por seu amor maior pelos seus amigos, seu testemunho de fidelidade e solidariedade com o povo congolês vitima de tantas atrocidades. Ainda hoje existe uma dor profunda das famílias e dos Crúzios que conviveram com os jovens padres assassinados. Quando eles contam a história do assassinato de seus amigos, irmãos e tios, no fundo de seus olhos, ainda se nota o choque da perda de tantas vidas. Para nós é uma honra religiosa e humana sermos irmãos desses homens que sofreram e se doaram por um amor maior.  “Vidas pela vida, vidas pelo reino”.